5 livros para falar de otimismo com as crianças

22 janeiro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários


A leitura é capaz de inúmeros benefícios, desde a expansão do vocabulário ao aumento da criatividade. E quando a leitura é realizada com as crianças e seus pais e/ou cuidadores, o vínculo afetivo se estreita, trazendo momentos de carinho e afeição.

A Biblioterapia em família pode auxiliar a expressão dos sentimentos e pensamentos que, por vezes, é difícil para as crianças. Por isso, o Ateliê da Biblioterapia trará uma série de artigos, apresentando livros que podem ajudar na conversa com crianças sobre temas importantes.

O tema de hoje é "otimismo". Boa leitura e acompanhe os próximos artigos!

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"O que pode uma história no meio de um furacão? As páginas de um livro continuam abertas mesmo se estiver passando um vendaval? Quando a esperança brinca de esconde-esconde, os livros podem ajudar?

Para nossa sorte, a literatura também infere na realidade, no sentido de que a suspende para depois transformá-la. Voltamos de um livro de ficção mais cientes de que este é só um dos mundos, de que há outros possíveis, de que a possibilidade não acaba enquanto houver um horizonte para mirar.

Existem livros que falam justamente sobre esses tais horizontes, histórias que nos lembram que ensinar uma criança a ler palavra não é o suficiente, é preciso ensiná-las a ler o mundo, mesmo (talvez, principalmente) quando ele se esconde. Nos dias em que o mundo está tão desarrumado que é fácil esquecer onde buscar coerência e sentido, visitar outras realidades pode ser um caminho de volta para a nossa própria casa.

Com uma certeza, quase inconveniente, nestes tempos incertos, uma singela e incompleta (ainda bem!) lista de livros para falar sobre otimismo e esperança sem nem usar essas palavras.





1) A ÁRVORE VERMELHA, de Shaun Tan

Como acontece quase sempre nos livros de Shaun Tan, os personagens aqui não têm nome - porque não precisam ter. São tão universais que um nome os limitaria em um tempo-espaço. “A árvore vermelha” conta a história de um dia na vida de todo mundo. Aqueles em que perdemos a capacidade de enxergar além e ficamos esmagados em nosso próprio senso de injustiça. Nada de interessante dá as caras no horizonte, tudo vai mal, ninguém entende, nada tem sentido. Dias em que (e aqui eu abro aspas para o Shaun Tan):

O mundo é uma máquina surda

Neste momento, o leitor levanta a cabeça – eu levantei! – e interrompe a leitura para pensar “É isso! Exatamente isso”. Este livro é feito desses pequenos e preciosos momentos em que leitor e obra se conectam. “Este livro me entende”. Quase não há narração aqui, mas não falta história. Um personagem perdido, rumando sozinho pela rua em busca ainda não  sabe de quê. Até que de repente...

Não se pode passar desse ponto sem estragar todo o encanto do livro. “A árvore vermelha” é um livro para conhecer de perto, ler e reler, apreciar as ilustrações, encantar-se com a revelação como se fosse a primeira vez. E quem sabe, com sorte, surpreender-se com uma coisa qualquer  fora das páginas do livro, e no fim descobrir que o mundo não é assim nem tão máquina nem tão surda.


2) TUDO DEPENDE DE COMO VOCÊ VÊ AS COISAS, de Norton Juster

Se você é daqueles que de vez em quando vê o mundo de cabeça pra baixo, este é o seu livro no mundo!

"Se ele soubesse o que fazer da vida, nada disso teria acontecido", diz a contracapa. Depois de ler a história, é inevitável pensar "Ufa! Ainda bem que ele não sabia!". Caso contrário, nada disso teria acontecido. E o "isso", aqui, é tanta coisa!

 "Tudo depende de como você as coisas"  ("The Phantom Tolbooth"), de Norton Juster, é um clássico universal da literatura infantojuvenil , de 1961. Para alegria dos brasileiros, ele chegou ao Brasil em 1999 pela Companhia das Letras.

A história é sobre Milo, um garotinho entediado que nunca ficava satisfeito em lugar nenhum. Se estava na escola, queria ir pra casa, Se estava em casa, a cabeça estava longe. Nada pra ele era verdadeiramente interessante.

Até que um dia ele é pego de surpresa por uma imensa caixa de papelão em seu quarto. Um presente misterioso: uma cabine de pedágio. Mas para quê um garotinho entediado precisa de uma cabine de pedágio? Esse é só o começo de uma história que passa pelos lugares e personagens mais disparatados, como uma família em que todos nascem suspensos no ar, "com a cabeça exatamente na altura que terão quando forem adultos", e vão crescendo de cima para baixo: quanto mais velho se é, mais perto do chão. Parece estranho, mas tudo depende de como você as coisas. Tem  a senhora Dúvida Atroz, a Desculpa Esfarrapada, a Doce Rima, a Razão Pura. Todos sempre prontos para mostrar a Milo o outro lado das coisas, o avesso da lógica, o inverso do lugar-comum.

Sem mais nem menos, diálogos geniais brotam de trechos despretensiosos, como este:

- Posso ver tudo o que está dentro, atrás, em volta de, coberto por ou que vem depois de qualquer coisa. Na verdade, a única coisa que não posso ver é aquilo que está diretamente diante do meu nariz.
- E isso não é um pouquinho inconveniente?
- Um pouco, mas é muito importante saber tudo o que existe por trás das coisas, e minha família cuida do resto. Meu pai prevê as coisas, minha mãe revê as coisas, meu irmão entrevê as coisas, meu tio vê o outro lado de todas as questões, e minha irmã Alice vê o que existe por debaixo das coisas.
Ou este:
- Como é que se pode ver algum coisa que não existe?, bocejou o Mausquito, ainda não desperto de todo.
- Às vezes, é muito mais simples do que ver as coisas que existem, ele disse. Por exemplo, se alguma coisa existe, você só pode vê-la com os olhos abertos, mas, se não existe, pode ver perfeitamente com os olhos fechados. É por isso que as coisas imaginárias são quase sempre mais fáceis de ver do que as coisas reais.
-  Então, onde fica a Realidade, latiu Toque.
- Aqui mesmo! - gritou, agitando os braços. - Vocês estão bem no meio da rua principal.


3) HOJE, de Eva Montanari

Um livro sobre a importância de estar presente no presente. Que quer saber como você amanheceu hoje, e te lembrar  que amanhã pode ser diferente. Afinal, se o problema maior de um dia pode ser uma baita dor de cabeça, amanhã já vai ter virado memória.

"Hoje", da escritora italiana Eva Montanari, conta a história de uma garotinha chamada Niki. Um dia - que pode ser hoje, amanhã ou ontem -, Niki está se sentindo como se sentirão em algum momento todos os outros seres humanos que andam pelo mundo: triste. A manhã vem cheia de desesperança, chateação, barulho. E Niki quer saber: “o que cabe dentro de um dia?”.

Publicado em 2014 pela editora Jujuba, "Hoje" vem para dimensionar o leitor sobre o tamanho de um mísero dia em uma vida em que se tem tantos. Ao mesmo tempo, aponta para a importância de reconhecer a potência do aqui e do agora, de antever neles as expectativas que ninguém percebeu ainda. De ter a inconveniência necessária de acreditar no futuro, mesmo que ele seja só o dia de amanhã.


4) SE VOCÊ QUISER VER UMA BALEIA, de Julie Fogliano

"Se você quiser ver uma baleia
vai precisar manter os olhos
no mar e esperar", diz o livro.

Da autora americana Julie Fogliano e publicado no Brasil pela Pequena Zahar, este livro é uma verdadeira ode ao poder da espera. Poderia ser apenas um garotinho afoito em um barco ansiando por ver baleias. Mas é tão mais do que isso que periga o olhar se perder.

E se isso acontecer, o livro te encontra, te chacoalha e avisa: "Se você quiser ver uma baleia, vai precisar saber para onde não olhar". Não cabem distrações para quem sabe o que espera?

A metáfora é a da baleia não por acaso. Afinal, como deixar passar despercebida uma coisa tão grande, não é mesmo? Mas talvez esteja aí o ponto chave da história: para alcançar o grande, precisamos saber passar com sabedoria pelo pequeno.

Como diz a máxima de Lao Tsé, "semeia o grande no pequeno". As rosas, os pelicanos e o verde que o personagem encontra pelo caminho ou avista de sua janela são apenas formas de chegar aonde a baleia o espera. Baleias aqui são sonhos, e sonhar acordado é tarefa para persistentes, afinal:

“Se você quiser ver uma baleia
 vai precisar de uma poltrona não muito gostosa
 e de uma coberta não muito quentinha
 porque olhos com sono não enxergam baleias
 e baleias não esperam para serem encontradas.”


5) PEQUENA COISA GIGANTESCA, de Beatrice Alemagna

Os livros de Beatrice Alemagna são imensos. E neste caso, não é modo de dizer, os livros são realmente imensos, física e artisticamente. Com belas ilustrações e pouquíssimas palavras, é o caso de "Os cinco esquisitos", "O que é uma criança?" e deste "Pequena coisa gigantesca", todos traduzidos no Brasil pela WMF Martins Fontes.

Este livro conta a história de uma pequena coisa, frágil, discreta e volátil que pode estar num grão de areia, num barulho, em uma lembrança perdida, em um olhar. Ela está em toda parte, embora nem todo mundo possa ver. Mas como pode, se como diz no título, ela é tão gigantesca? O que será?

“A senhora do crocodilo ficou à porta, a esperar por ela, durante longos meses. Nunca viu chegar nada. Há pessoas que não sabem reconhecê-la.”

“Um dia, como por brincadeira, ela escondeu-se numa lágrima e encheu um homem de nostalgia.”

Como diria o David Foster Wallace, "as realidades mais óbvias, claras e aparentes são as mais difíceis de conversar a respeito". Este livro fala sobre como nós, sendo crianças ou adultos, deixamos nossa vista se nublar pelas coisas desnecessárias e perdemos a capacidade de enxergar o que está bem debaixo do nosso nariz, como o personagem de Norton Juster.
Nesta história que não fala sobre medidas nem sobre proporções, a capacidade de vislumbrar a beleza contida nas pequenas coisas é que parece mensurar o tamanho de quem somos."

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