Sobre a importância da leitura de contos de fadas, independentemente da nossa idade

30 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

O prazer das histórias não termina com a infância.



Nossas primeiras memórias como leitores provavelmente estão ancoradas em personagens como Branca de Neve e os Sete Anões, os Três Porquinhos, Cinderela, João e Maria, e assim por diante. Como as histórias míticas de todos os povos e culturas, os contos de fadas são uma forma narrativa que, não só apela para o prazer estético dos ouvintes através de certos recursos, mas também tem um componente de iniciação no sentido de que um papel didático é dado na transmissão de certas leis não escritas, ou como situações exemplares com as quais o futuro adulto as verá mais cedo ou mais tarde.

O psicanalista Bruno Bettelheim propõe que a importância da leitura de contos de fadas com crianças excede os objetivos da mera competência de leitura; pois podem ajudar "a criança a extrair um sentido coerente do tumulto de seus sentimentos".
 
Sentimentos – ou impulsos – desenvolvem-se em nós desde tenra idade e nem sempre a nossa capacidade de processá-los e dar-lhes resultados saudáveis ​​está em consonância com a nossa educação e nosso lugar no mundo.
 
As histórias da tribo, a formação do universo mítico e religioso, historicamente serviram para fornecer essa sensação de enraizamento e dever nas crianças em relação aos seus lugares de origem. Mas com a modernidade, quando as fronteiras mudam e as migrações colocam em suspensão a permanência física das famílias em seu lugar de origem, as histórias servem como uma base moral que nos dá a capacidade de responder a situações novas e complexas.
 
Como Bettelheim diz: a criança precisa de idéias sobre como colocar sua casa interior em ordem e, com base nisso, estabelecer a ordem em sua vida em geral. Necessita – e isso dificilmente requer ênfase no momento da nossa história atual – da educação moral que lhe transmita, sutilmente, as vantagens do comportamento moral, não através de conceitos éticos abstratos, mas pelo que parece tangível direito e, portanto, cheio de significado para a criança.
 
Além disso, "a forma e a estrutura dos contos de fadas sugerem à criança imagens que servem para estruturar seus próprios sonhos e melhor canalizar sua vida." Isto é importante porque os contos de fadas, apesar de não terem uma estrutura rígida e rigorosa como versificação poética, utilizam recursos como repetição, reticências ou clímax para testar várias soluções para o mesmo problema.
 

O dragão ou o guardião de um determinado lugar não se contenta com qualquer oferta, e o herói às vezes apenas entende tudo ao ver como seus antecessores foram devorados. Por meio desta repetição, a criança pode compreender que não há uma solução única para os problemas e permitir-se experimentar várias delas.
 
Por outro lado, esses mecanismos pedagógicos não terminam com a infância. Autores como César Aira ou Pascal Quignard – escritores de literatura "adulta" –  têm abordado seu fascínio com estas estruturas contos de fadas aparentemente repetitivas e tediosas, que não perdem o seu encanto nas mãos do autor experiente.
 
Uma das últimas histórias de Quignard “El niño con rostro color de la muerte” (Editora Cantamares, 2016) demonstra que, apesar da densidade discursiva do autor, é construída sobre uma estrutura de repetição clássica: três irmãs são enviadas por sua pobre mãe para casar com um misterioso rico obcecado por crianças, cujas esposas morrem misteriosamente na noite de núpcias.
 

Acredita-se que o universo infantil é ingênuo e gentil; mas a psicanálise nos mostra que não apenas crianças, mas também adultos, têm conteúdos inconscientes – frequentemente reprimidos – com os quais é difícil lidar e que podem afetar seriamente nossa personalidade.
 
Fantasias violentas, raiva, aversão, compulsão, medo, incerteza em face do futuro, desamparo, o perigo do orfanato, todos os elementos que os contos de fada usam para dar soluções criativas e propor ferramentas de ação que podem alimentar a imaginação da criança e do adulto, oferecendo uma rota moral em um tempo que oferece poucos apoios de outro tipo fora da arte.


Crédito das imagens: Pixabay.

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Os desafios do Bibliotecário Biblioterapeuta

11 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário e com o advento da Era da Informação, esse profissional ganhou um novo status e passou a desempenhar diferentes atividades nas mais diversas áreas do conhecimento, entre elas, a Biblioterapia.

A Biblioterapia é uma prática, ciência e arte, cujo objetivo é o desenvolvimento do ser por meio da leitura terapêutica de livros e outros materiais bibliográficos. A leitura terapêutica oferece inúmeros benefícios, dentre eles: promove o bem estar; melhora o vocabulário e a escrita; facilita o diálogo; gera a capacidade de resolver problemas do dia a dia com mais clareza; estimula a criatividade e a imaginação; aumenta o nível de motivação; fornece meios para a descoberta de novas formas de sentir e pensar; ajuda na expressão de pensamentos e sentimentos; auxilia na compreensão do outro e no desenvolvimento de empatia;  e potencializa o autoconhecimento pela reflexão.


De acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações, a Biblioterapia é uma atividade do profissional Bibliotecário (Profissionais da Informação - Bibliotecário 2612-05). No entanto, como uma ciência multi e interdisciplinar, a Biblioterapia também tem sido praticada por profissionais de outras áreas do conhecimento, tais como, Psicologia, Psiquiatria, Pedagogia, Jornalismo, etc.

O Ateliê da Biblioterapia promove um espaço onde as pessoas podem experimentar, criar e recriar a arte da leitura para o desenvolvimento pessoal e o restabelecimento da saúde física, mental, espiritual. Esse projeto foi idealizado pela Bibliotecária Ana Cláudia Leite e, atualmente, conta com o site (https://www.ateliedabiblioterapia.com) e com a página no Facebook (@ateliedabiblioterapia), onde são publicados artigos, fotos, cursos, vídeos, entre outros materiais para a divulgação da Biblioterapia e os benefícios da leitura.

Desde 2016, o Ateliê da Biblioterapia oferece um curso de Biblioterapia online com certificado  para aqueles que desejam conhecer essa arte. A inscrição no curso, que já recebeu mais de 100 alunos, pode ser feita no próprio site ou clicando AQUI.

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Era uma vez... Felicio Thomaz, o contador de histórias!

10 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

No dia 20 de março, comemora-se o Dia Internacional do Contador de Histórias.

E para celebrar esse dia tão especial, o Ateliê da Biblioterapia apresenta uma entrevista exclusiva com o prestigiado contador de histórias Felicio Thomaz.
 
Nascido em Porto Ferreira (interior do estado de São Paulo) em 1948, Antonio Felicio Loureiro Thomaz é professor e, atualmente, podemos apreciar a sua arte na Livraria Eureka (na cidade de Araras, SP), que em 2019 está comemorando 15 anos de contação de histórias.

Felicio Thomaz na contação de histórias (Fonte da imagem: arquivo pessoal de Felicio Thomaz).


Sr. Felicio Thomaz, o que é contar histórias?

“É transmitir uma emoção, um sentimento fazendo com que esses sentimentos e emoções sejam vivenciados pelas crianças. É reviver príncipes e princesas, diabos e bruxas, bondades e maldades, anões, gnomos, mágicas e atitudes. É fazer sonhar, vibrar, se emocionar e emocionar.”
 

Como iniciou a sua carreira de contador de histórias? Possui ou possuía alguma outra profissão?

“Sempre fui professor, seja no ensino superior, ensino médio, fundamental e infantil. Como trabalhei com filosofia para crianças na educação infantil e no ensino fundamental comecei aí, junto com ótimos colegas que tive, a contar histórias e a ir na livraria para as contações. Com o tempo fiquei responsável por essa atividade.”

Como funciona e quais as atividades realizadas na contação de histórias?

“Na livraria Eureka, procuramos sempre começar no horário, 18 horas. Colocamos dois edredons no chão para as crianças sentarem e normalmente leio dois ou mais livros e conto uma história, principalmente de Grimm, Andersen, os clássicos. Nesse momento, as crianças pintam um desenho relativo à história lida e aí o Eduardo (proprietário da Livraria) sorteia alguns livros infantis e um álbum de figurinhas próprio da livraria. Esse álbum é também vendido na Livraria, as figurinhas não são vendidas e sim ganhas na contação de histórias. Terminado o sorteio, as crianças vão para a porta onde ganham pão de queijo e a figurinha. Tudo isso leva em torno de 50 a 60 minutos. Na última terça-feira de cada mês, as funcionarias da livraria apresentam um teatro de fantoches (transmitido pela internet na página da livraria no Facebook). Nesse dia, ou antes ou depois do teatro, leio alguns livros. Nosso objetivo é sempre valorizar a leitura e mostrar que as histórias que contamos estão nos livros.”
 
Livraria Eureka lotada na sessão de contação de histórias (Fonte da imagem: arquivo pessoal de Felicio Thomaz).
 

Qual a maior dificuldade que já encontrou ao longo de sua carreira?

“De vez em quando, algumas crianças não param e chegam até a atrapalhar – e embora os pais estejam juntos nem sempre tomam providencias! Mas isso não é comum. Uma dificuldade é a de adequação das histórias a serem contadas em relação a idades das crianças.”
 

Quais as histórias mais pedidas pelos leitores/ouvintes?

“Muito raro isso acontecer. Durante uns anos, contei histórias em salas de aula de alunos do quarto ano do ensino fundamental (atividade do Mais Cultura) e aí, como tinha mais contato com as crianças, eles pediam muito histórias de terror!
   

Qual livro (ou quais livros) mudou (mudaram) a sua vida e por quê?

“Difícil saber, mas como sou professor de Filosofia, o Platão e o Sartre sempre me marcaram. Adoro o Saramago, qualquer um! Um bom livro: Se um navegante numa noite de inverno do Ítalo Calvino.”
  
Teatro de Fantoches na Livraria Eureka (Fonte da imagem: Arquivo pessoal de Felicio Thomaz).
  

Cite uma curiosidade ou fato interessante sobre a sua atividade.

“O olhar de uma criança numa contação de histórias é profundamente realizador. A participação nas histórias das crianças da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). As pessoas que ligam para combinar uma contação de histórias e que deixam de procurar quando falo que cobro!!!”
 

Contatos de Felicio Thomaz

Telefone (19) 3541-2593
Email: felicioth@gmail.com
Facebook e Instagram: Felicio Thomaz
 

Contatos da Livraria Eureka

Endereço: Rua Coronel Justiniano, nº 808, Centro, Araras (SP)
Telefone: (19) 3542 9892
E-mail: eurekavirtual@livrariaeureka.com.br
Facebook: Livraria Eureka


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Dia 08 de março - Dia Internacional da Mulher

07 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

Parabéns para todas as mulheres!!!


Com Licença Poética

Adélia Prado


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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Nosso cérebro é feito para amar a poesia (antes mesmo de entendê-la)

04 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

Um estudo científico mostra que o cérebro assimila a música do discurso poético antes de compreender seu significado literal.


Nós sempre soubemos que a poesia possui um poder imensurável e misterioso. E, embora, para muitos, esse tipo de expressão exija que o conhecimento prévio seja totalmente compreendido, basta ler uma peça lírica poderosa para que nossas emoções e imaginação sejam abaladas, para dizer o mínimo. Isso tem uma explicação agora.

Recentemente, o psicólogo Guillaume Thierry, da Universidade de Bangor (no Reino Unido), realizou um estudo que mostrou pela primeira vez cientificamente que a poesia, mais especificamente a sua qualidade musical, é capturada pelo cérebro humano, inconscientemente, antes de seu significado literal ser assimilado. Isto demonstra que as propriedades rítmicas e harmônicas do discurso poético estimulam partes inconscientes de nossa mente, e não só isso, ele também implica a existência (como muitas vezes descrito por muitos poetas) de uma estreita relação entre intuição e esta forma de arte.




O estudo de Thierry, publicado na revista Frontiers in Psychology, gravaram as respostas electrofisiológicas do cérebro de um grupo de indivíduos quando eles foram expostos aleatoriamente para uma forma poética tradicional galesa conhecida como Cynghanedd. Todos eles eram falantes nativos de galês e não tinham conhecimento de tal poesia. O procedimento envolveu participantes ouvindo frases inteiras de um poema e, em seguida, indicando se o segmento era aceitável ou não (em termos auditivos). Sem poder explicar a razão de suas respostas, a grande maioria qualificou como aceitáveis ​​as sentenças que seguiam as regras daquela forma lírica.

De um modo geral, através do estudo entendeu-se que os cérebros dos indivíduos estudados detectado quando certa repetição de consoantes ou vogais no poema deveria estar lá ou não, ou seja, antecipando o que estava inconsciente, como se as regras poéticas faziam parte de um inconsciente arquetípico - todos esses segundos antes de entenderem o significado das palavras do poema.

Durante o teste, Thierry e sua equipe também estudaram o que em psicologia é conhecido como o "Potencial Relacionado a Eventos" ou ERP dos participantes; este termo pode ser definido como a resposta cerebral (em termos fisiológicos) a um evento sensorial específico, neste caso a poesia. Assim, verificou-se que nos indivíduos estudados, o ERP se dava em frações de segundos após ouvir a última palavra da frase, logo quando incluída a repetição de consoantes e padrões de acentuação característica da Cynghanedd, e não quando o fragmento não fez ditas características. É curioso que essas respostas cerebrais fossem dadas mesmo quando os participantes não conseguiam identificar quais fragmentos seguiam as regras e quais não eram, ou quais as que as estimulavam.

"A poesia é um tipo particular de expressão literária que transmite sentimentos, pensamentos e idéias restrições acentuando métricas, rima e aliteração", explica Thierry, "e isso reflete o som e, por si só, carrega um significado implícito. O estudo também lembra a mágica inexplicável que a poesia tem e nos lembra porque aprender e ensinar é tão importante. Finalmente, os resultados destes testes indicam que a mente humana pode ser inspirada e encorajada, mesmo quando a fonte é um estímulo desconhecido, o que explica porque o cérebro ama a poesia, mesmo antes que eu pudesse explicar".


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Citações e curiosidades - Fev/2019

01 março Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários








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