Sessão de Biblioterapia: "Guardar" de Antonio Cicero

30 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários





Guardar


Antonio Cicero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, 
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.






0 Comentários:

A Biblioterapia e a Jornada do Herói

22 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários




Outubro é um mês repleto de comemorações para o universo da leitura: dia 12 foi o dia nacional da leitura, dia 20 foi o dia do poeta, dia 29 será o dia nacional do livro e dia 31 o dia nacional da poesia. Datas muito importantes!

E hoje, dia 23 de outubro, dá início em todo o país a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, que tem como objetivo incentivar a leitura e a construção do conhecimento, além de divulgar a profissão do bibliotecário. E eu aproveito a oportunidade para convidá-lo a participar dessas comemorações, tenho certeza que no seu bairro, na sua escola ou na sua faculdade, há bibliotecas que estarão oferecendo diferentes oficinas, eventos culturais e artísticos muito interessantes.

E aqui, nós vamos comemorar a Semana do Livro e da Biblioteca com um tema fascinante: a Biblioterapia e a Jornada do Herói.

A Biblioterapia e a Jornada do Herói

Como abordado em vídeos anteriores, a Biblioterapia, como a leitura terapêutica, é capaz de promover o desenvolvimento humano por meio da auto-reflexão. Então, quando o leitor está imerso na leitura, pode se identificar com algum personagem ou situação, pode sentir o alívio de suas emoções e quando ele acompanha a jornada do herói, às vezes esse processo se intensifica.

Mas o que é a Jornada do Herói? Você já deve ter ouvido essa expressão e, se não ouviu, já deve ter identificado em vários filmes e livros: Batman, Harry Porter, O Senhor dos Anéis, Star Wars, O Rei Leão, Homem de Ferro e tantos outros.

Joseph Campbell é um escritor norte-americano, considerado uma das maiores autoridades em mitologia, que escreveu diversos livros sobre o tema, incluindo “O Herói de Mil Faces”, onde ele apresenta o “monomito”, ou seja, a ideia de um mito comum a todos nós.

Dessa forma, a Jornada do Herói nos ajuda a compreender cada etapa da nossa própria jornada, nos trazendo mais sentido e significado em nosso processo de autoconhecimento e empoderamento pessoal.

Campbell nos sugere o ciclo da Jornada do Herói em três partes essenciais: a partida, a iniciação e o retorno. E, a partir disso, Christopher Vogler, um famoso roteirista de Hollywood, em sua obra chamada “A Jornada do Escritor” sintetizou essa jornada em 12 estágios.

Apresentamos, então, esses conceitos em 12 passos simples e de que forma isso se torna uma ferramenta poderosa para as práticas de Biblioterapia.


Os 12 Passos da Jornada do Herói

Passo 1: o mundo comum. É o ponto de partida, o mundo normal do herói antes de toda a aventura começar. Nesse momento, conhecemos a sua natureza. O leitor se conecta com o personagem, por meio de pontos em comum, tais como, suas qualidades, seus defeitos e sua personalidade.

Passo 2: o chamado à aventura. Uma aventura ou um desafio é apresentado ao herói e ele tem a sua vida transformada da noite para o dia. A identificação do leitor com o personagem se dá no momento em que o herói percebe a situação e assume riscos para resolver o problema.

Passo 3: a recusa ao chamado. O herói se recusa ou demora para aceitar a aventura, demonstrando relutância à mudança. Normalmente, o leitor percebe o medo frente ao novo desafio do personagem e quer ir até o final junto dele para saber se ele irá enfrentar o problema.

Passo 4: o encontro com o mentor. O herói encontra um personagem que será o seu guia ou mentor, que dará conselhos e que o ajudará a descobrir mais de si mesmo. E o leitor pode se lembrar daqueles que passaram por sua vida e que o motivaram a seguir em frente.

Passo 5: o cruzamento do limiar. O herói deixa os limites conhecidos e se aventura em um mundo completamente novo. E o leitor percebe a primeira grande mudança no herói.

Passo 6: os testes, aliados e inimigos. Surgem os primeiros conflitos que marcam a passagem do herói para o mundo da aventura, onde ele descobre as amizades, as alianças e os adversários, assim como o leitor, que descobre e percebe quem está realmente ao seu lado.

Passo 7: a aproximação da caverna profunda. Após batalhas vencidas, surge um perigo ainda maior e que demanda dedicação e preparo do herói. Em seu esconderijo, o herói enfrenta os seus medos e, junto ao leitor, sente a sua força interior para seguir adiante.

Passo 8: a provação. O herói tem o seu maior desafio, mas para vencê-lo terá de usar todo o seu conhecimento e experiência. O leitor tem a certeza de que ele será capaz de enfrentá-lo e vivencia a grande transformação do personagem em um verdadeiro herói

Passo 9: a recompensa. Depois de enfrentar o seu maior desafio, o herói se torna mais forte, mais sábio, mais poderoso... e isso evidencia o sentimento do leitor de que vale a pena ter os seus medos superados.

Passo 10: o caminho de volta. Com a satisfação de ver a sua missão cumprida, o herói é surpreendido com uma ameaça final e o leitor o acompanha na decisão de receber a sua recompensa ou fazer algo em benefício de todos.

Passo 11: a ressurreição do herói. O herói vence a batalha final e retorna ao seu mundo comum, transformado pelas experiências que teve. Assim, a vitória final traz, ao leitor, uma conexão com o seu propósito de vida.

Passo 12: o retorno com o elixir. Uma poção de cura, a conquista de um amor ou, até mesmo, a liberdade de viver são elementos que o herói traz para as pessoas comuns. Assim como o herói, o leitor perceberá o seu sucesso, a sua conquista e a sua mudança. 

Após ver os 12 passos da Jornada do Herói, conseguiu identificar essa estrutura de história contida em livros e filmes?

E essa Jornada do Herói oferece diferentes possibilidades em práticas de Biblioterapia, há muitas questões que podem ser discutidas, tais como, a aceitação de novos desafios, a dificuldade de lidar com mudanças, o encontro com pessoas que transformam as nossas vidas, a resolução de problemas, a realização de sonhos...

Há também a Jornada da Heroína, que tem elementos muito similares à Jornada do Herói, mas tem particularidades do arquétipo feminino. Só que isso nós vamos desvendar em outro vídeo.

Então até lá, aproveite para se inscrever em nosso canal, curtir e compartilhar e entrar em contato por meio do nosso site ou redes sociais.

Eu te espero no próximo vídeo.

Um fraterno abraço e até mais!

Ana Cláudia Leite

0 Comentários:

Conversa com a Biblioterapeuta Inez Garcia

16 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários


Essa bibliotecária de Florianópolis (SC) tem costurado histórias e bordados memórias, trazendo todo o seu encanto para a arte da Biblioterapia. A nossa convidada especial de hoje é Inez Garcia.

A seguir, confira a sua entrevista exclusiva cedida ao Ateliê da Biblioterapia.




1. Para começar a nossa conversa, o que a Biblioterapia representa pra você?

Com base nos meus estudos, percepções e experiência a Biblioterapia representa POSSIBILIDADE, ABERTURA, e CRIAÇÃO! Ela é um recurso terapêutico imensurável de apoio ao ser humano nos processos de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal!


2.Como você se tornou Biblioterapeuta?

A Biblioterapia sempre se fez presente na minha história, me nutrindo, ampliando meu olhar de mundo, mesmo quando desconhecia o seu conceito e sua existência. A leitura sempre foi um lugar que visitei como forma de apoio, sobrevivência e inquietude para tudo que borbulhava dentro do meu ser. No filme "A Livraria", a personagem Christine diz que “quando lemos uma história, nós a habitamos”, e a leitura inúmeras vezes me possibilitou “mudar/fugir de casa”, ao tempo que fazia com que me sentisse parte deste todo gigante que é o mundo e no qual sou única!

Mas foi em 2011, numa conversa com uma grande amiga também chamada Ana Cláudia sobre que tema pesquisar para o Projeto de Mestrado em Ciência da Informação - UFSC, que a Biblioterapia se apresentou pra mim de maneira FORMAL E CONCEITUAL, posso assim dizer. Dessa história toda nasceu a Dissertação de mestrado defendida em 2014 intitulada: A percepção dos discentes de Biblioteconomia da UFSC e UDESC sobre Biblioterapia, que contou com a orientação da Profª. Clarice Fortkamp Caldin, a quem agradeço pela oportunidade e orientação, bem como, com a participação providencial dos discentes entrevistados de Biblioteconomia UFSC/UDESC que expuseram suas percepções durante a entrevista e por meio do Discurso do Sujeito Coletivo deram voz a suas percepções sobre esta ferramenta tão potente que é a Biblioterapia, enfocado ao que confere a Biblioteconomia. Para quem quiser saber mais sobre a dissertação é só acessar o link http://tede.ufsc.br/teses/PCIN0113-D.pdf.

Após o mestrado, mergulhei no que chamo de processo “busca de mim mesma” (autoconhecimento), é… foi necessário me encontrar para saber o que fazer com tanta coisa que aprendi! Pois, assim como os entrevistados da minha pesquisa, mesmo sendo Bibliotecária atuante, não sabia como fazer a
Biblioterapia acontecer, se tornar realidade na minha jornada.

Em 2017 meu corpo deu sinal de que as coisas não iam bem, e tive que me acolher num afastamento das atividades laborais por 4 meses. Foi um período de muita reflexão, de tomadas de decisão, todas muito importantes e significativas, mas uma delas foi primordial e diria que foi um divisor de águas na minha jornada e atuação profissional, quando escolhi fazer o Curso Biblioterapia - bases conceituais, que havia descoberto na época do mestrado, da Cristiana Seixas, a quem tenho admiração, respeito e gratidão!

Fazer o curso e experienciar a Biblioterapia com ela foi pura cura e (re)-significação pra mim!!! A frase “não dê pérolas aos porcos”, a leitura do livro A força da palmeira, reverberam em mim até hoje, e me levam a fazer mudanças profissionais importantes, servem como fontes de inspiração para
minha atuação como Biblioterapeuta! E, como tantas outras leituras que surgiram nos últimos tempos e que me aproximam cada vez mais com o que eu vim fazer nesse mundo, com meu propósito de vida, me fortalecem para realizar ações para que muitos outros seres se beneficiem com a Biblioterapia. Assim, criei o site Biblioterapia Desenvolvimento Humano e venho trilhando essa jornada com a Biblioterapia.



3. E como é a sua atuação com a Biblioterapia? Como são realizadas as práticas de Biblioterapia?

Nos últimos dois anos venho atuando com a Biblioterapia de desenvolvimento humano individual e também em grupo. A modalidade em grupo está mais voltada para mulheres com a Vivência Mulheres que me habitam que teve seu início jul./2018 feita em parceria com a Chris Bueno em São Paulo e depois em Araraquara-SP com a Maria Aparecida Pardini.

Todas as modalidades de Biblioterapia partem de um “tema gerador”, sendo que no atendimento individual e grupo fechado o tema selecionado está alinhado com a demanda do cliente ou grupo de clientes, ou seja que faça sentido com o momento dele.

A partir do tema gerador definido vou selecionando as leituras, de forma que criem um diálogo entre si, comigo, com os participantes e com as demandas que surgem, vou colocando todos para conversar. Faço uma seleção sem julgamentos e para isso me ancoro nas Leis de Ranganathan em
especial a duas delas “Todo leitor tem seu livro” “Todo livro tem seu leitor” e na minha experiência profissional de 15 anos como bibliotecária, sem deixar de respeitar as bases conceituais preconizadas no referencial teórico existente sobre a biblioterapia que orienta o uso de literatura, textos narrativos e literários, proporcionando uma experiência profunda com beleza, leveza e possibilidades de abertura e criação!

No grupo aberto sigo minha intuição e trago os temas assim como as leitura de acordo com as demandas do viver pelas quais eu passo e também daquilo que observo, ouço e percebo das pessoas que estão a minha volta, elas sempre me dizem muito, e logo penso, bom se essa leitura fez sentido pra mim, pode muito bem apoiar outras pessoas.



4.Quais são os seus projetos atuais?

Estou em um momento de estudo, adequações e redesenho das propostas que já realizo com a Biblioterapia e também lançando o curso teórico prático Imersão Biblioterapia como recurso.


5. E você se lembra de algum caso interessante ou história com a Biblioterapia que te marcou?

Todas as histórias que surgiram durante e após as vivências de Biblioterapia foram marcantes. Mas tem uma que aconteceu na primeira vivência com a Biblioterapia que realizei com o Livro Amar e ser Livre: as bases para uma nova sociedade de Sri Prem Baba, juntamente com outros textos literários de Carlos Drummond, Pablo Neruda, Cecília Meirelles e outros autores que retratam o amor, que só reforçou que este seria um caminhar frutífero com a Biblioterapia, bem como, o vislumbre de cooperação com outros profissionais. No final da vivência em grupo, uma participante relatou que aquela experiência a tinha possibilitado trazer a tona aspectos da sua vida que ainda não estavam curados, como ela pensava que estavam, e que ainda a limitavam. E que a partir dessas memórias, e com o apoio das obras que foram sendo resgatadas durante o processo biblioterapêutico ela foi se sentindo tocada por essas diferentes vozes, o que possibilitou (re)significar e dar um lugar amoroso a todos os sentimentos. Destacou ainda que esta experiência complementou o trabalho de acompanhamento que realiza com o psicólogo.


6.Quais são os seus próximos projetos? Quais serão as próximas novidades ?

Como já mencionei anteriormente a Biblioterapia para mim representa possibilidade, abertura e criação, então posso dizer que o momento casa bem com isso! Para 2019, sigo com as propostas que já mencionei. Já para 2020, bom, vou me valer de Rubem Alves “não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.”



7. E para quem quiser conhecer o seu trabalho, como pode te encontrar?

Me seguir no Instagram @biblioterapiadh na bio tem todos os links do site, facebook e contato de whatsapp, caso queiram me contactar.



8. Para encerrar, você poderia indicar uma leitura especial para os nossos amigos do Ateliê da Biblioterapia?

Indico um romance brasileiro que me tocou muito e fez muito sentido pra mim no primeiro semestre deste ano, ancorando e selando processos de terapia e autoconhecimento pelos quais passei. Esta leitura me permitiu olhar, aceitar e ressignificar minha história de vida no que confere a minha ancestralidade feminina. Super indico o livro "A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas" de Maria José Silveira que reconta por meio de narrativas de vida e de uma forma sensível e bem feminina a história do Brasil, desde 1500 até o início do século XXI, apresentando a história de mulheres indomáveis e guerreiras, que enfrentaram todos os fatos e acontecimentos da época, traz um retrato fiel das mulheres brasileiras, que, em todas as suas diferenças podem ser descritas de diversas formas, menos como frágeis e submissas.

Ao Ateliê de Biblioterapia, minha gratidão pela oportunidade e desejo de muito sucesso!


(Fonte das imagens: arquivo pessoal de Inez Garcia).

0 Comentários:

Sessão de Biblioterapia: "Os Ombros Suportam o Mundo" de Carlos Drummond de Andrade

09 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários






Os ombros suportam o mundo


Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. São Paulo: MEDIAFashion, 2008. (Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros, v. 4).

0 Comentários:

01 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários

Você sabe tudo o que a leitura pode fazer por você? 

Então, confira o nosso vídeo sobre oito incríveis benefícios da leitura e também conheça as propostas de nossos cursos online sobre Biblioterapia.



Benefícios da Leitura


0 Comentários:

Citações e curiosidades - Set/2019

01 outubro Ateliê da Biblioterapia 0 Comentários


















0 Comentários: